A arquitectura é uma arte. A submissão dos arquitectos ao sistema produtivo da construção e às leis estúpidas e imorais que regem a produção arquitectónica impede que o que é construído seja, (a maior parte das vezes senão sempre), um caminho na busca de espaços que funcionem hoje e no futuro para ser mero produto do sector das obras, sejam elas públicas ou privadas.

Se as outras artes não estão reféns de leis específicas o produto arquitectónico, o que se constrói, está sob o escrutínio dos poderes que o controlam e degradam.

Assim, e, porque a arquitectura se tem feito com blocos” ou caixotes, as leis têm sido feitas considerando esse tipo de modelos (formas e volumes) não deixando ao arquitecto a possibilidade de criar obra nova que continue culturalmente o que para trás ficou.

Como quem paga as obras está convencido que o resultado das obras é só seu e não, também do arquitecto, as interferências e destruições são permanentes. Daí dizer que arquitectura construída não existe par além de uma ou outra obra feita por um qualquer papa a quem todos venerem.

É esta a situação em que vive a produção dos arquitectos; estes, para viver no sistema produtivo em que estão inseridos, vendem-se e prostituem-se para aprovar os processos nas câmaras rapidamente de modo a que os clientes fiquem satisfeitos com a sua “competência”. Única maneira que têm de a avaliar.

O meu orgulho e o meu amor-próprio impediram-me de entrar no esquema (há quem diga: “a tua estupidez”) e, a partir do momento em que os concursos passaram a ser manipulados deixei de poder aprovar os meus projectos e de concorrer a concursos (feitos, muitas vezes, para os promotores entregarem ao Manuel ou ao Joaquim a encomenda previamente feita).

Como o arquitecto só trabalha por encomenda, com um terreno, um programa, e um orçamento, o meu contributo para a história da arquitectura viu-se limitado às poucas encomendas que fui tendo, sendo que muitas não se construíram por as câmaras serem rígidas na aplicação das leis existentes e daquelas outras que os seus serviços e políticos inventam à sombra dessas leis.

A minha arquitectura é o resultado das ideias sobre a arquitectura popular que na ESBAP se apoiaram no Inquérito à Arquitectura Popular Portuguesa (edição do Sindicato dos Arquitectos nos meados do sec. XX) e dos trabalhos feitos nessa altura pelos arquitectos que estavam a produzir obra (casa de Ofir, pavilhão de ténis da quinta da Conceição, casa Gali, convento em Gondomar, etc.). Naturalmente que recebi influencias de arquitectos estrangeiros (Corbusier, Wright, Aalto) mas não me levaram a seguir as suas estéticas ou estilos. Simplesmente informaram-me e abriram os meus olhos para outras culturas e modos de pensar e fazer. De resto como as arquitecturas do Japão, da Suécia, da Finlândia, da Holanda, da Bélgica, da Alemanha e, até, mais tarde, do México.

De todas elas terei roubado qualquer coisa que influenciou a minha produção já que as técnicas que se usavam aqui, principalmente a arte da pedra, estavam a desaparecer por concorrência do betão e de processos construtivos mais expeditos, baratos e leves (maior altura leva a materiais mais leves).

Levei muitos e muitos anos a ser capaz de dizer que a matéria-prima que o arquitecto usa é o espaço, tal é a roupagem que envolve os temas da arquitectura, e tão preocupados têm andado os que produzem projectos ou os criticam com temas da moda e palavras difíceis. No entanto sempre que me apareceu um trabalho os meus esforços foram orientados para propor uma construção que beneficiasse o cliente e quem fosse utilizar os espaços. Daí que as casa da Rua da Beneditina (Ângelo de Sousa), o bloco do talhão O (Ó) da Pasteleira, as moradias da Rua Padre Xavier Coutinho, a sede da Mutual companhia de seguros (axa), a torre do Liceu em Viana do Castelo, a unidade turística de Esmoriz, etc., terem sido sempre construídas com, implantações, formas e volumes diferentes dos que as câmaras previam.

As minhas propostas têm sido diferentes porque me recuso a enclausurar as famílias em volumes que parecem caixas para transportar pombos, que não têm prolongamento próprio para o exterior e que não têm espaços secundários que reputo imprescindíveis (para agilizar a utilização dos espaços, para arrumação da tralha que se vai guardando, garrafeira, oficina ou equivalente, etc.).


© 2011 José Pulido Valente